PRÉ-SAL: SEGURANÇA X RISCO


A economia brasileira por estratégia política será desenvolvida por parte dos investimentos provenientes da tentativa de exploração dos campos de petróleo na Camada Pré-sal, ou seja, os esforços para a extração profunda possibilitada pela evolução tecnológica permitirá a exploração de reservas inacessíveis, movimento econômico que trará empregos e investimentos na infraestrutura portuária e marítima, em especial nas regiões costeiras do Sul e Sudeste do Brasil.

O Pré-sal lembra o lançamento do Pró-álcool. Entretanto, grandes diferenças existem entre o programa de desenvolvimento lançado em 1975 e a corrida ao Pré-sal, hoje os investimentos são infinitamente maiores, no passado a busca por uma fonte renovável de energia era visionária e um exemplo que foi seguido por outros países, de comum temos apenas o mecanismo de divisão do custo que será gerado pela tentativa de exploração desses recursos.

O primeiro sinal da divisão deste custo com cada brasileiro é a modificação da sistemática de obtenção do preço dos combustíveis divulgada pela Petrobrás, na última semana de outubro de 2013, logo após o primeiro leilão dos campos da Camada do Pré-sal. O rearranjo na forma de cálculo dos preços dos combustíveis é a única maneira de compor os custos da aventura brasileira, visto que a exploração pretendida compreende um petróleo mais caro e por consequência um aumento significativo nos preços dos combustíveis, que acabará por ser transmitido a todo o mercado brasileiro. Muito próximo do subsidio do álcool, que como se sabe, é compensado nos últimos 38 anos com um maior preço da gasolina.

Isso significa que o custo dessa nova estratégia econômica será pago, também, pelo Povo Brasileiro que além de um combustível mais caro terá os preços de todos os insumos acrescidos na mesma proporção do repasse do aumento dos custos com transporte para toda cadeia de consumo. A dúvida é se os benefícios e riscos envolvidos são suficientes para a aposta na odisseia do Pré-sal.

A reposta não é simples, ainda mais quando o argumento divulgado é ardiloso. Nossa última fronteira na terra são as profundezas do oceano, seja pela lenda de Atlântida apresentada por Platão ou pelo romance de Júlio Verne, aquele mundo desconhecido sempre nos despertou interesse.

O novo conto é "que logo ali depois das nossas praias existe um tesouro, um verdadeiro ouro negro, a disposição dos brasileiros, e o melhor de tudo é que essas riquezas serão as razões para transformação da saúde e da educação no Brasil". O canto ou o conto da sereia não poderia ser mais sedutor, quem será contra desenvolvimento econômico quando significa mais médicos, hospitais e remédios, ou seja, tudo aquilo que necessitamos nos momentos mais preocupantes de nossas vidas, quando nossos filhos ou pais passam por dificuldades de saúde. Um Sistema Único de Saúde melhor, com a dignidade da pessoa humana respeitada parece um sonho, porém pelo discurso será alcançado, bastando nos apossarmos da riqueza que está logo ali escondida.

Entretanto, a exploração de um recurso natural não renovável talvez não seja tão necessária, quanto imaginamos a redução do consumo de energia obtida com a nova tecnologia de emissão de luz – LED, quando totalmente integrada, fará com que nossa produção de energia renovável seja suficiente para manutenção das necessidades brasileiras. Investir em um projeto para os próximos 50 anos de algo que não será prioridade é o dilema que o Governo enfrentou em 2011, quando optou pela exploração da Camada Pré-sal.

Ao que parece para alguns defensores da exploração na profundidade de até 8.000 metros das reservas de petróleo e gás pode proporcionar a indústria brasileira uma inovação tecnológica semelhante em importância aquela obtida com a corrida espacial entre os anos de 1957 até 1975. A corrida espacial trouxe inovações que jamais teríamos caso não houvéssemos atingido o objetivo da visita do homem à lua. As novas tecnologias beneficiaram toda a humanidade e provavelmente não estaria escrevendo este artigo caso o desafio de enviar homens à Lua e retorná-los a salvo não tivesse sido lançado pelo Presidente Kennedy em 1961.

É possível que o investimento no desenvolvimento e melhoria da tecnologia atual e futura possa repercutir para os Brasileiros e toda humanidade com a exploração da Camada Pré-sal, trazendo inovações que mudariam nossas vidas. Entretanto, acredito que isso possa ocorrer de forma muito tímida, tendo em vista que a tecnologia envolvida para a exploração tem o principal foco em mecanismos de proteção e controle dos problemas com possíveis vazamentos e segurança, ou seja, a tecnologia pesquisada busca evitar danos ambientais com a extração de petróleo em profundidade. O Operador do Pré-sal busca uma solução para o próprio problema criado pela natureza intrínseca da exploração. Isso significa que a solução da restrição será pontual e a tecnologia obtida não repercutirá para os demais campos de desenvolvimento humano. Essa exploração é muito diferente que os programas espaciais americanos e soviéticos, em que as inovações foram obtidas pela superação das dificuldades das ações de meio que são aquelas necessárias a levar o homem à Lua e não aos problemas gerados com sua chegada ao satélite, pois não haviam restrições quanto a visita, mas sim como chegar e traze-los de volta vivos.

A analogia criada demostra que a principal preocupação reside na possibilidade de vazamentos nos poços ou ainda em fissuras como ocorreu no área de exploração da Chevron na Bacia de Campos, que não foram causadas por acidente marítimo na plataforma, mas sim pela adequação da conformação geomorfológica do campo. Outro evento foi o incidente com a plataforma Deepwater no Golfo do México, que considero o preludio dos problemas brasileiros, pois plataformas irmãs aquela que originou a maior catástrofe da história da intervenção humana no meio ambiente marinho são utilizadas pela Petrobras, a operadora do Pré-sal, e no caso Americano a plataforma atendia todas as exigências de segurança e controle das autoridades locais, sendo improvável até aquele momento uma catástrofe como aquele.

Hoje, depois do caso da Deepwater Horizon e da Chevron, um vazamento de grandes proporções no Pré-sal é esperado, não sabemos quando, porém a contagem já iniciou e a conta de tal desastre será dividida entre os brasileiros, seja pela modificação do meio ambiente marinho seja pelo custo com a tentativa da reparação, que será pago indiretamente por todos com o aumento dos preços dos combustíveis fosseis.

E como se o tesouro que logo ali se esconde for ouro de tolos para tolos, fazendo com que o resultado dessa aventura seja o fim de nossos sonhos, pelo menos para uma geração. Já a boa razão para escolha desse modelo de exploração, ao que parece, é a necessidade de uma balança comercial positiva. Em outubro de 2013 o déficit acumulado na Balança Comercial Brasileira era de US$ 1,8 bilhões, e um dos responsáveis foi a importação de petróleo bruto e combustíveis.

O petróleo extraído da Camada Pré-sal será caro, não sendo competitivo internacionalmente, pois pelo preço de extração não haverá interessados, ou quando houver o lucro com a comercialização será irrisório se comparado com outros campos de exploração espalhados pelo mundo. Esse custo desproporcional foi o que levou a OGX a suspensão prematura das atividades no campo de Tubarão Azul. Diante disso, esse recurso mineral não é propriamente um tesouro, mas sim uma ferramenta de ajuste econômico, que pode com sua extração manter a balança comercial positiva por vários anos, pelo simples fato de consumirmos esses reservas internas ao invés da importação desses mesmos insumos.

Mas essa ferramenta tem um custo, que é o preço de nossos combustíveis, que continuará entre os caros do mundo, hoje ocupamos a 39º posição e a aposta é que ficaremos até 2020 entre os 10 países com o combustível mais caro. E ao contrário senso daquilo que é divulgado: O Pré-sal tornará ainda mais caro da gasolina em nosso País.

Não estamos sozinhos neste movimento estratégico, os Estados Unidos que optaram pela exploração das reservas de xisto em seu território, com propósitos semelhantes aos brasileiros. Entretanto, a exploração do xisto, ao que parece é potencialmente muito mais prejudicial a segurança na exploração como ao meio ambiente, neste aspecto, pelo menos por ora, prefiro a escolha do modelo tupiniquim. Quem viver pagará!


Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Nenhum tag.
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

© 2001-2020 Beckhauser, Kroetz & Sócios - Escritório de Advocacia (CNPJ 05.775.898/0001-93)

Rua Visconde de Taunay, 456 Joinville (SC) CEP 89203-005

email: advocacia@bks.adv.br telefone: (47) 3453-3333

  • iconfinder_Asset_10_2001672 4
  • Twitter Social Icon
  • Yelp Social Icon
  • Google ícone social Places
  • YouTube Social  Icon
  • Facebook Social Icon
  • LinkedIn Social Icon